queermondego: 06/01/2005 - 07/01/2005

Monday, June 20, 2005

 



Cumprir a Constituição:
Homofobia Não!


«Os paneleiros hádem morrer todos». A frase é de um dos elementos de uma milícia organizada que em Viseu decidiu perseguir, ameaçar e atacar homens gay. Esta foi uma expressão mais violenta e visível de uma homofobia doentia que é afinal bem mais generalizada do que os erros gramaticais dariam a entender: no campo, na cidade, na escola, na família, no trabalho, nos jornais, na televisão, no café, no dia-a-dia, a homofobia está no meio de nós.

À homofobia que nos remete para a vergonha do armário respondemos hoje, mais uma vez, e sempre, com o orgulho de a recusarmos. Somos lésbicas, somos gays, somos bissexuais, somos transgénero, somos cidadãs e cidadãos da República Portuguesa e a nossa Constituição já diz não à discriminação. Portugal é, neste momento, o único país da Europa cuja Constituição proíbe explicitamente a discriminação com base na orientação sexual – é tempo de “Cumprir a Constituição” e de dizer “Homofobia não!” .

Depois de uma campanha eleitoral marcada por tentativas de exploração da homofobia, exigimos do novo Governo e da nova maioria medidas concretas de combate ao preconceito homófobo e o fim da discriminação na lei. Precisamos de novas medidas legislativas e da responsabilização do Estado na promoção da educação anti-homofobia – para além da aplicação efectiva de leis já existentes. Precisamos que o Estado dialogue com o movimento LGBT (Lésbico, Gay, Bissexual e Transgénero) na identificação das discriminações sistemáticas praticadas pelos próprios organismos públicos, desde o impedimento da doação de sangue por homens homossexuais às barreiras no acesso às Forças Armadas.

No entanto, no mesmo ano em que o Tribunal Constitucional declarou a inconstitucionalidade do artigo 175º do Código Penal (uma reivindicação histórica do movimento LGBT), apresentamos outra reivindicação clara no sentido do cumprimento do princípio constitucional que garante a igualdade de direitos e deveres: tal como em Espanha, queremos a revisão do Código Civil para que passe a permitir o igual acesso de casais de gays ou de lésbicas ao casamento civil.

Enquanto que casais de pessoas de sexos diferentes têm actualmente acesso ao casamento civil e à união de facto, para os casais de gays ou de lésbicas existe apenas a união de facto. Isso significa que há muitos direitos associados ao casamento civil aos quais gays e lésbicas não têm acesso: do registo às heranças, passando pelos regimes de propriedade até aos inúmeros aspectos da vida quotidiana em que o estado civil é relevante. Estas limitações afectam as relações e as vidas de muitos gays e lésbicas e contradizem o texto da Constituição – que é a nossa Lei Fundamental.

Não queremos um país em que haja cidadãs e cidadãos de segunda por causa do amor. Queremos, pelo contrário, uma equiparação legal das relações hetero- e homossexuais. Não aceitamos menos do que a dignidade e o respeito que as nossas relações merecem e recusamos todos os atributos negativos com que a homofobia tenta menorizá-las. Exigimos, pelo contrário, ser igualmente valorizad@s pela sociedade que integramos e sobretudo pelo Estado para o qual tod@s contribuímos.

O fim da exclusão dos casais de gays ou de lésbicas no acesso ao casamento civil promoverá simultaneamente a liberdade e a igualdade. Qualquer objecção a esta medida terá por isso uma única fonte: a homofobia. Enquanto o casamento civil não for alargado aos casais de pessoas do mesmo sexo, é o Estado que endossa e glorifica na lei essa mesma homofobia e é o próprio Estado que classifica as nossas relações de indignas e é o próprio Estado que, sem erros gramaticais, nos insulta. É afinal o Estado que continua a chamar-nos “fufas” e “paneleiros”.

Com a razão, o coração e a Constituição do nosso lado, e com o apoio de todas as pessoas que se preocupam com os valores da democracia e com os direitos civis, dizemos por isso ao poder político e também às pessoas homófobas deste mundo: recusamos o insulto e a despromoção; temos o direito a viver e temos o direito a amar. E não, não havemos de casar tod@s, mas havemos tod@s de poder fazê-lo. O igual acesso ao casamento civil é a nossa reivindicação clara, a nossa exigência democrática, o nosso grito pela liberdade e pela igualdade.




e ao Arraial?


Wednesday, June 15, 2005

 


Porque a APF é uma instituição séria e lutadora. Porque a educação sexual é uma urgência. Sem tabus.
Assina a petição!

Tuesday, June 14, 2005

 

Para ti poeta do amor...


ADEUS



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.



Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas

fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes

E eu acreditava.

Acreditava.

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.



Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.



Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor

já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.



Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão

gastas.



Adeus.



in «Os Amantes sem Dinheiro» (1950)

Tuesday, June 07, 2005

 



As associações não te prives - Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais e o Grupo Local de Coimbra da associação “rede ex aequo” vem deste modo convidá-los a estarem presentes numa tertúlia/ conversa a realizar no próximo dia 9 pelas 21h e 30m no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

A não te prives – Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais realiza todos os meses uma conversa tertúlia dedicada a um tema que funciona como espaço de formação, discussão e encontros entre os/as seus/suas sóci@s e amig@s e que desta feita é organizada conjuntamente com o Grupo Local de Coimbra da associação “rede ex aequo”

Estas “tertúlias não te prives” constituem-se assim como o momento privilegiado de encontro entres os/as membros da associação, bem como o espaço perfeito para um primeiro contacto com a associação por parte das pessoa que tem interesse no nosso trabalho.

Assim no próximo dia 9 de Junho, quinta-feira realizaremos a nossa próxima tertúlia, dedicada ao tema da homofobia internalizada (no final do mail publicamos algumas reflexões sobre o tema).

Esta tertúlia terá inicio às 21h e 30m horas no Centro de Estudos Sociais (Junto à Caixa Geral de Depósitos do Hospital Velho). Pedimos aos sóci@s e amig@s da “não te prives” que confirmem a sua presença para os telefones 914477147 ou 969574977 ou via mail para o naoteprives@yahoo.com.
Para qualquer dúvida contactem.


VEM E TRAZ UM AMIGO… ESTE È UM ESPAÇO LIVRE DE PRECONCEITO!




manifestações de homofobia interiorizada

* Negação da sua orientação sexual (do reconhecimento das suas atracções emocionais e sexuais) para si mesmo e perante os outros.
* Tentativas de mudar a sua orientação sexual.
* Sentir que nunca se é "suficientemente bom" (por vezes tendência para o "perfeccionismo").
* Pensamentos obsessivos e/ou comportamentos compulsivos.
* Fraco sucesso escolar e/ou profissional; ou sucesso escolar e/ou profissional excepcional, como forma de ser aceite.
* Desenvolvimento emocional e/ou cognitivo atrasado.
* Baixa auto-estima e imagem negativa do próprio corpo.
* Desprezo pelos membros mais "assumidos" e "óbvios" da comunidade Gay, Lésbica, Bissexual e Transgender.
* Desprezo por aqueles que ainda se encontram nas primeiras fases de assumir a sua homossexualidade.
* Negação de que a homofobia/o heterossexismo/a bifobia/a transfobia/o sexismo são de facto problemas sociais sérios.
* Desprezo por aqueles que não são como nós; e/ou desprezo por aqueles que se parecem connosco.
* Projecção de preconceitos num outro grupo alvo (reforçado pelos preconceitos já existentes na sociedade).
* Tornar-se psicologica ou fisicamente abusivo; ou permanecer num relacionamento abusivo.
* Tentativas de passar por heterossexual, casando, por vezes, com alguém do sexo oposto para ganhar aprovação social ou na esperança de "se curar".
* Crescente medo e afastamento de amigos e familiares.
* Vergonha e/ou depressão; defensividade; raiva e/ou ressentimento.
* Esforçar-se pouco ou abandonar a escola; faltar ao trabalho/fraca produtividade.
* Controlo contínuo dos seus comportamentos, maneirismos, crenças e ideias.
* Fazer os outros rir através de mímicas exageradas dos estereótipos negativos da sociedade.
* Desconfiança e crítica destrutiva a líderes da comunidade GLBT.
* Relutância em estar ao pé ou em mostrar preocupação por crianças por medo de ser considerado "pedófilo".
* Problemas com as autoridades.
* Práticas sexuais não seguras e outros comportamentos destrutivos e de risco (incluíndo riscos de gravidez e de ser infectado com HIV).
* Separar sexo e amor e/ou medo de intimidade. Por vezes pouco ou nenhum desejo sexual e/ou celibato.
* Abuso de substâncias (incluíndo comida, álcool, drogas e outras).
* Desejo, tentativa e concretização de suicídio.

f a c t o s
* A homofobia/o heterossexismo/a bifobia/a transfobia são formas de opressão, não são simples medos.
* A homofobia/o heterossexismo/a bifobia/a transfobia estão infiltrados na sociedade.
* É difícil não internalizar as noções negativas da sociedade em relação à homossexualidade, bissexualidade e transgenderismo.
* Não temos culpa se internalizamos estas noções negativas.
* Há passos que podem ser dados para reduzir, ou mesmo eliminar, a opressão internalizada.
* Trabalhar para eliminar a opressão internalizada é um processo longo - por vezes de uma vida inteira
.

Traduzido de "Internalized Homophobia: From Denial to Action - An Interactive Workshop" de Warren J. Blumenfeld publicado em http://ex-aequo.web.pt/homofobia.html

Wednesday, June 01, 2005

 

Esta quinta, sexta, sábado e domingo decorrerá no Museu Botânico uma performance de Dança Contemporânea, inspirada no obra de Miguel Torga, mais precisamente, sobre o Diário I

Horário: 21:30

Preço dos bilhetes: 2.50 eur

O espetáculo baseia-se na criação de movimentos que estão relacionados com textos que escreveu no Diário. Esses textos vão desde poesias a quadros da vida quotidiana ou mesmo imagens. O tom de Miguel Torga geralmente é um pouco rude, misturando algumas cenas bonitas com a crueldade da natureza.


Estande e mais tarde médico de Coimbra, este escritor legou-nos um conjunto de textos que decerto refletem uma visão muito própria de ver o mundo.

Esta performance surge no decorrer de uma oficina de Dança contempoânea e Composição, onde se pretende criar uma relação muito próxima com o espaço arquitectónico e com os objectos que o envolvem.

Interfências_vol.0 é uma forma de desconstruir espaços vulgares em locais mais amplos e mesmo distantes do quotidiano. É uma forma interferir com um espaço não convencional de espetáculos.

Entre as abóbadas de um antigo convento de monges beneditinos vários corpos circulam, agem, movimentam-se...