Thursday, April 29, 2004
Desejos
Olá
Com alguns meses de atraso, resolvi partilhar convosco um poema que um amigo querido brasileiro me ofereceu pelo Natal. Espero que gostem tanto quanto eu. E que escrevam coisas mágicas como esta, que nos fazem ter vontade de aproveitar o sol até aos últimos raios e, mesmo nessa altura, agradecer pela lua que chegou.
--------------------------------
Desejos
Carlos Drummond de Andrade
Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
Com alguns meses de atraso, resolvi partilhar convosco um poema que um amigo querido brasileiro me ofereceu pelo Natal. Espero que gostem tanto quanto eu. E que escrevam coisas mágicas como esta, que nos fazem ter vontade de aproveitar o sol até aos últimos raios e, mesmo nessa altura, agradecer pela lua que chegou.
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Desejos
Carlos Drummond de Andrade
Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
Monday, April 12, 2004
7 dias
Aqui vai mais uma, saída na passada sexta-feira numa coluna do diário As Beiras, intitulada “7 Dias” que me pediram para responder a algumas questões sobre a semana que passou
O melhor da semana
Mecenato internacional financia compra de medicamentos para o HIV/SIDA
O Banco Mundial, a Unicef e a Fundação Clinton negociaram com a indústria farmacêutica possibilitando a compra mais barata de medicamentos para o HIV/SIDA por parte dos países em desenvolvimento.
O pior da semana
Mesquita bombardeada pelo EUA no Iraque, 60 mortes
As tropas dos EUA bombardearam uma mesquita provocando a morte de 25 pessoas. Segundo uma testemunha o muro exterior da mesquita foi atingido por mísseis disparados de um helicóptero e segundo um responsável das “tropas aliadas” a mesquita perdeu "o estatuto de lugar protegido desde que foi utilizada pelos rebeldes como trincheira de tiro".
A frase da semana
“Os recursos de Coimbra permitem encarar um Museu de História das Ciências de envergadura internacional” O Presidente da União Internacional de História da Ciência, Robert Halleux, referiu-se deste modo ao património científico da Universidade de Coimbra. Uma frase, vinda de fora, que deverá envaidecer a cidade, e alertar consciências para a defesa e promoção do mesmo património.
número
0 (zero)
O número de jovens adolescentes homossexuais que pôde “dar a cara” na reportagem da SIC, transmitida no passado domingo, intitulada Verdade Escondida. Um bom exemplo de jornalismo que mostrou uma face invisível dos nossos jovens.
O protagonista
Boaventura de Sousa Santos e o Observatório Permanente de Justiça
O sociólogo conimbricense e a estrutura de investigação que dirige, deram a conhecer um inquérito sobre a justiça portuguesa que demonstrou a má relação do cidadão português com a justiça, a falta de confiança na estrutura judicial, e um conhecimento real muito diminuto do funcionamento da justiça.
O melhor da semana
Mecenato internacional financia compra de medicamentos para o HIV/SIDA
O Banco Mundial, a Unicef e a Fundação Clinton negociaram com a indústria farmacêutica possibilitando a compra mais barata de medicamentos para o HIV/SIDA por parte dos países em desenvolvimento.
O pior da semana
Mesquita bombardeada pelo EUA no Iraque, 60 mortes
As tropas dos EUA bombardearam uma mesquita provocando a morte de 25 pessoas. Segundo uma testemunha o muro exterior da mesquita foi atingido por mísseis disparados de um helicóptero e segundo um responsável das “tropas aliadas” a mesquita perdeu "o estatuto de lugar protegido desde que foi utilizada pelos rebeldes como trincheira de tiro".
A frase da semana
“Os recursos de Coimbra permitem encarar um Museu de História das Ciências de envergadura internacional” O Presidente da União Internacional de História da Ciência, Robert Halleux, referiu-se deste modo ao património científico da Universidade de Coimbra. Uma frase, vinda de fora, que deverá envaidecer a cidade, e alertar consciências para a defesa e promoção do mesmo património.
número
0 (zero)
O número de jovens adolescentes homossexuais que pôde “dar a cara” na reportagem da SIC, transmitida no passado domingo, intitulada Verdade Escondida. Um bom exemplo de jornalismo que mostrou uma face invisível dos nossos jovens.
O protagonista
Boaventura de Sousa Santos e o Observatório Permanente de Justiça
O sociólogo conimbricense e a estrutura de investigação que dirige, deram a conhecer um inquérito sobre a justiça portuguesa que demonstrou a má relação do cidadão português com a justiça, a falta de confiança na estrutura judicial, e um conhecimento real muito diminuto do funcionamento da justiça.
Wednesday, April 07, 2004
jornais e homossexualidade
uma das coisas que por vezes acontece em Coimbra é o facto dos jornais dedicarem alguma atenção à questão da homossexualidade. o pessoal da não te prives tem feito algum esforço para chamar à atenção de algumas coisas tendo o ultimo exemplo sido publicado à alguns dias no jornal universitário A Cabra (www.acabra.net) com referências à "não te prives" e rede ex-aequo
espreitem em... http://www.aac.uc.pt/cabra/impresso/pdf/111.pdf
páginas centrais e chamada na primeira página!
espreitem em... http://www.aac.uc.pt/cabra/impresso/pdf/111.pdf
páginas centrais e chamada na primeira página!
Tuesday, April 06, 2004
voltar...
voltei... ou melhor re-inventei...
estive afastado do queermondego algum tempo: um novo trabalho muito ocupante; uma crise entre o pessoal daqui; um familiar muito querido falecido, de quem tenho muitas saudades; alguma instabilidade pessoal fruto das dificuldades nos novos quotidianos em que me vejo envolvido... tudo isto... tem contribuido para este afastamento que hoje terminou...
fica apenas a certeza de mudanças no queermondego e uma maior vontade de estas presente por aqui!
um abraço aos amigos...
estive afastado do queermondego algum tempo: um novo trabalho muito ocupante; uma crise entre o pessoal daqui; um familiar muito querido falecido, de quem tenho muitas saudades; alguma instabilidade pessoal fruto das dificuldades nos novos quotidianos em que me vejo envolvido... tudo isto... tem contribuido para este afastamento que hoje terminou...
fica apenas a certeza de mudanças no queermondego e uma maior vontade de estas presente por aqui!
um abraço aos amigos...
Friday, April 02, 2004
Igualdade e Diferença
Tenho pensado muito sobre a questão da igualdade e da diferença. De facto, sou mm obrigada a pensar, sobretudo quando me deparo com crónicas da Helena Matos no Público ou do César das Neves no DN. Recordo-me que a Helena Matos perguntava, o ano passado, por que razão havia um Arraial Gay, qd não havia um Arraial Hetero. Esta perplexidade, à primeira vista, pode parecer razoável. Mas não é. Vejamos.
Ao longo dos tempos, há pessoas excluídas sistematicamente em função de variados critérios (sexo, idade, deficiência, cor da pele, religião, orientação sexual, etc.). Quem exclui é sempre quem tem poder para excluir. Isso denota um diferencial de poder que não é facilmente invertido. Nem sequer é facilmente contestado. Neste processo tornar visível a indignação é a única semente de resistência possível. É o orgulho voluntário por oposição à vergonha imposta.
Tradicionalmente quem se indigna contra a exclusão é quem fica directamente vitimado por essa situação. Mas nem sempre é assim. Porque não há forças, porque há incertezas, porque custa muito ser "minoritário". Muitos estudos apontam no sentido de que uma forma de opressão ou dominação só é sustentada no tempo porque existem oprimidos/as ou dominados/as que perpetuam a situação de vitimação, por vários factores. A estes factores não são alheias questões como a baixa auto-estima, a degradação económica ou a ausência de recursos de resistência. Na esfera das identidades sexuais, a manutenção de situações de opressão é consolidada pelo que se designa por homofobia internalizada, conceito que se aplica a muitas outras situações de opressão e dominação:
"Gandhi acreditava que o sistema de dominação compele a vítima a interiorizar as regras do sistema de tal maneira que nada garante que, uma vez derrotado o opressor, a dominação não continue a ser exercida pela antiga vítima, ainda que de formas diferentes. A vítima é um ser profundamente dividido quanto à identificação com o opressor ou à diferenciação relativamente a este" (Boaventura de Sousa Santos, 2000: 351-352).
Esta relação entre opressor/a e oprimido/a é marcada por uma dependência recíproca, o que implica que o acto de opressão exija agressor/a e vítima. Nas palavras de B. S. Santos, «[A] força do opressor só existe na medida em que a fraqueza da vítima o permite: a capacidade do opressor é uma função da incapacidade da vítima; a vontade de oprimir é uma função da vontade de ser oprimido» (2000: 351).
Daí a importância das solidariedades e das acções articuladas: com mulheres, anti-racistas, sindicatos, imigrantes, heterossexuais...
E daí tb a importância da visibilidade. E é aqui que entra o papel das Marchas.
Sou uma apoiante "feroz" das Marchas LGBT desde a sua 1ª edição em Portugal, em 2000. Acompanhei a sua evolução, o seu crescimento, as mudanças sociais que propiciaram. Conheço por dentro as dificuldades, as expectativas, os sonhos de quem, ano após ano, se dedica à sua preparação. E sei que é graças a momentos como esse, que muitos portugueses e portuguesas hoje sabem que existe um grupo extenso de pessoas que não podem mais ignorar.
Finalmente, ainda Boaventura de Sousa Santos tem uma máxima lapidar a propósito da igualdade e da diferença:
"Temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza"
Sei também que cada pessoa tem o seu percurso. O meu poderia passar por outras solidariedades, para além do ctivismo LGBT. Mas a este que me dedico há algum tempo. E enquanto houver gente que morre ou passa a ser menos feliz pq há outra gente que é homófoba, eu estarei nas fileiras deste movimento.
Porque tod@s temos o direito a ser felizes junto da pessoa que amamos. E ninguém pode ser privado de direitos apenas porque não é heterossexual.
Essa nossa convicção adquire o auge da expressão pública precisamente nos momentos altos do movimento, ou seja, na Marcha anual. Por isso é que não podemos desmobilizar, principalmente num momento em que abundam os Villa-Boas e os César das Neves deste mundo. Ainda que nos possamos rever noutros eventos, mais do que neste, é importantíssimo que passemos uma imagem clara de que dizemos colectivamente "Não" à opressão.
Por isso, querid@s amig@s, é que vos peço, mais uma vez, que estejamos juntos a 26 de Junho, em Lisboa. Tal como a 25 de Abril.
Bjs
Cris
Ao longo dos tempos, há pessoas excluídas sistematicamente em função de variados critérios (sexo, idade, deficiência, cor da pele, religião, orientação sexual, etc.). Quem exclui é sempre quem tem poder para excluir. Isso denota um diferencial de poder que não é facilmente invertido. Nem sequer é facilmente contestado. Neste processo tornar visível a indignação é a única semente de resistência possível. É o orgulho voluntário por oposição à vergonha imposta.
Tradicionalmente quem se indigna contra a exclusão é quem fica directamente vitimado por essa situação. Mas nem sempre é assim. Porque não há forças, porque há incertezas, porque custa muito ser "minoritário". Muitos estudos apontam no sentido de que uma forma de opressão ou dominação só é sustentada no tempo porque existem oprimidos/as ou dominados/as que perpetuam a situação de vitimação, por vários factores. A estes factores não são alheias questões como a baixa auto-estima, a degradação económica ou a ausência de recursos de resistência. Na esfera das identidades sexuais, a manutenção de situações de opressão é consolidada pelo que se designa por homofobia internalizada, conceito que se aplica a muitas outras situações de opressão e dominação:
"Gandhi acreditava que o sistema de dominação compele a vítima a interiorizar as regras do sistema de tal maneira que nada garante que, uma vez derrotado o opressor, a dominação não continue a ser exercida pela antiga vítima, ainda que de formas diferentes. A vítima é um ser profundamente dividido quanto à identificação com o opressor ou à diferenciação relativamente a este" (Boaventura de Sousa Santos, 2000: 351-352).
Esta relação entre opressor/a e oprimido/a é marcada por uma dependência recíproca, o que implica que o acto de opressão exija agressor/a e vítima. Nas palavras de B. S. Santos, «[A] força do opressor só existe na medida em que a fraqueza da vítima o permite: a capacidade do opressor é uma função da incapacidade da vítima; a vontade de oprimir é uma função da vontade de ser oprimido» (2000: 351).
Daí a importância das solidariedades e das acções articuladas: com mulheres, anti-racistas, sindicatos, imigrantes, heterossexuais...
E daí tb a importância da visibilidade. E é aqui que entra o papel das Marchas.
Sou uma apoiante "feroz" das Marchas LGBT desde a sua 1ª edição em Portugal, em 2000. Acompanhei a sua evolução, o seu crescimento, as mudanças sociais que propiciaram. Conheço por dentro as dificuldades, as expectativas, os sonhos de quem, ano após ano, se dedica à sua preparação. E sei que é graças a momentos como esse, que muitos portugueses e portuguesas hoje sabem que existe um grupo extenso de pessoas que não podem mais ignorar.
Finalmente, ainda Boaventura de Sousa Santos tem uma máxima lapidar a propósito da igualdade e da diferença:
"Temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza"
Sei também que cada pessoa tem o seu percurso. O meu poderia passar por outras solidariedades, para além do ctivismo LGBT. Mas a este que me dedico há algum tempo. E enquanto houver gente que morre ou passa a ser menos feliz pq há outra gente que é homófoba, eu estarei nas fileiras deste movimento.
Porque tod@s temos o direito a ser felizes junto da pessoa que amamos. E ninguém pode ser privado de direitos apenas porque não é heterossexual.
Essa nossa convicção adquire o auge da expressão pública precisamente nos momentos altos do movimento, ou seja, na Marcha anual. Por isso é que não podemos desmobilizar, principalmente num momento em que abundam os Villa-Boas e os César das Neves deste mundo. Ainda que nos possamos rever noutros eventos, mais do que neste, é importantíssimo que passemos uma imagem clara de que dizemos colectivamente "Não" à opressão.
Por isso, querid@s amig@s, é que vos peço, mais uma vez, que estejamos juntos a 26 de Junho, em Lisboa. Tal como a 25 de Abril.
Bjs
Cris
