Tuesday, January 27, 2004
futebol e homossexualidade? ou uma homenagem a Mikki
O silêncio do pessoal está relacionado com "agendas loucas" que vamos tentando resolver.
E se "tou" a escrever um textito sobre o filme/livro "As Horas" do qual o Miguel colocou aqui um belo post... não resisti a colocar aqui um texto que recebi de um amigo brasileiro qua fala sobre as "belas" ligações entre futebol e homossexualidade! É assim também uma homonagem (!!!) ao Miklos Féher...
Afinal de que falamos quando falamos de preconceito? E, já agora, Scolari não é nosso seleccionador?
Em julho de 2001 o técnico da seleção brasileira teria demonstrado preconceito contra gueis em uma entrevista à revista mexicana 'Cronica Hoy': «Se descubro que um jogador é guei eu o tiro da seleção - teria dito o técnico. No Kuwait por exemplo, quando era técnico da seleção de lá, me incomodava ver tantos gueis».
Porém, em 2002 Scolari desmentiu tal afirmação e fez um pronunciamento contra a discriminação. Em razão disto, o Grupo Gay da Bahia - GGB conferiu-lhe o Troféu Triângulo Rosa, com o qual as personalidades que de alguma forma contribuem para acabar com a discriminação contra os homossexuais são agraciadas a cada ano.
No entanto, a discriminação no futebol ainda existe.
Veja a propósito a crônica abaixo:
Homossexual no Futebol*
por Wagner Seixas
Lá venho eu, de novo, invadir a área do Daniel Gomes, editor de Esportes do ESTADO DE MINAS. Talvez seja saudosismo ou um exercício para não perder a embocadura de cronista esportivo. A motivação chegou de uma conversa de botequim. Enquanto esfriava a garganta com um Guarapan, filava um entrevero esportivo sexual de dois parrudos. Discutiam de forma exasperada sobre o homossexualismo no esporte bretão. "Bicha no meu time não joga", disse um deles, com a pose de treinador ou dono do clube. "E se o Pelé fosse gay?", indaga o outro interlocutor, certo de ter preparado uma armadilha para o rival. O indagado foi buscar num gole de cerveja segundos salvadores para pensar numa resposta. Rodopia, vai ao banheiro, acende um cigarro, devaneia e nada de responder. Eu, aflito, aguardava a resposta. Pressionado, o cara saiu-se com esta: "Só o Pelé, mais ninguém".
Não sei o fim da conversa, pois fui lembrar-me de dois personagens que trataram o tema de forma distinta. O Dario tem uma teoria polêmica." Time que quer ganhar título tem que ter uma bicha." Isso foi dito para uma 'multidão' de testemunhas. E o Beija-flor tratou logo de se explicar. "Eles são gentis, unem e organizam o grupo. Todo time em que joguei e fui campeão tinha um gay." Uma bomba reveladora. Pergunto-lhe, como um alcoviteiro. "Quem era a 'moça' na Seleção de 70?" Rasga uma gargalhada e safa-se: "Isso eu levo pro túmulo". Dadá pode manter seu segredo pela eternidade, mas para mim, todos os 22 jogadores passam a ser suspeitos. Todos estão dentro do armário. Quem seria o homossexual tricampeão do mundo? Na outra ponta desta discussão, o técnico Telê Santana. O Formiga era implacável nesse quesito. À mínima suspeita ele cortava o jogador de sua lista. E, ao contrário do parrudo do botequim, nem Pelé entraria no time se fosse boiola. E ele nem queria saber se Ganimedes, o belo rapaz da mitologia grega, tinha despertado paixão no poderoso Júpiter.
Em 1981, quando treinava aquele timaço da Copa de 82, Telê abriu o verbo: "Homossexual não joga no meu time de jeito nenhum. Pode ser muito bom para outras áreas, mas num clube de futebol não tem lugar para gente assim. Não fica bem um homem com um homossexual numa concentração". Sua declaração deixou em polvorosa a comunidade gay e ele passou para a lista dos amaldiçoados. Neste conflito de opiniões, acho que o Dario está certo. Embora o Brasil tivesse um dos melhores times de toda sua história, não havia um rapaz alegre para consolidar a conquista. Com uma equipe só de machões, conforme o figurino de Telê, o Paolo Rossi chutou o sonho do título. Quem seria o gay italiano? O Rossi, com certeza. Língua ferina para vingar a tragédia do Sarriá. Passados 20 anos, acho que Telê não pensaria mais desta forma. Convocaria um e lhe daria a faixa de capitão. Até porque, Belo Horizonte ganhou uma lei de proteção aos homossexuais e é uma das raras cidades do País a possuir uma legislação específica. Com a lei pode-se tudo, menos beijar na boca. Quanta hipocrisia.
+++++
"Minha iniciação foi com uma bicha que nosso time inteiro comeu, lá em Bauru." Frase atribuída a Pelé.
"Ele não tem peito para vir a público justificar a escalação deste árbitro porque não é homem. É um veado." Carlos Alberto Torres, quando era técnico do Botafogo, sobre o presidente da comissão de arbitragem CBF, Armando Marques.**
E se "tou" a escrever um textito sobre o filme/livro "As Horas" do qual o Miguel colocou aqui um belo post... não resisti a colocar aqui um texto que recebi de um amigo brasileiro qua fala sobre as "belas" ligações entre futebol e homossexualidade! É assim também uma homonagem (!!!) ao Miklos Féher...
Afinal de que falamos quando falamos de preconceito? E, já agora, Scolari não é nosso seleccionador?
Em julho de 2001 o técnico da seleção brasileira teria demonstrado preconceito contra gueis em uma entrevista à revista mexicana 'Cronica Hoy': «Se descubro que um jogador é guei eu o tiro da seleção - teria dito o técnico. No Kuwait por exemplo, quando era técnico da seleção de lá, me incomodava ver tantos gueis».
Porém, em 2002 Scolari desmentiu tal afirmação e fez um pronunciamento contra a discriminação. Em razão disto, o Grupo Gay da Bahia - GGB conferiu-lhe o Troféu Triângulo Rosa, com o qual as personalidades que de alguma forma contribuem para acabar com a discriminação contra os homossexuais são agraciadas a cada ano.
No entanto, a discriminação no futebol ainda existe.
Veja a propósito a crônica abaixo:
Homossexual no Futebol*
por Wagner Seixas
Lá venho eu, de novo, invadir a área do Daniel Gomes, editor de Esportes do ESTADO DE MINAS. Talvez seja saudosismo ou um exercício para não perder a embocadura de cronista esportivo. A motivação chegou de uma conversa de botequim. Enquanto esfriava a garganta com um Guarapan, filava um entrevero esportivo sexual de dois parrudos. Discutiam de forma exasperada sobre o homossexualismo no esporte bretão. "Bicha no meu time não joga", disse um deles, com a pose de treinador ou dono do clube. "E se o Pelé fosse gay?", indaga o outro interlocutor, certo de ter preparado uma armadilha para o rival. O indagado foi buscar num gole de cerveja segundos salvadores para pensar numa resposta. Rodopia, vai ao banheiro, acende um cigarro, devaneia e nada de responder. Eu, aflito, aguardava a resposta. Pressionado, o cara saiu-se com esta: "Só o Pelé, mais ninguém".
Não sei o fim da conversa, pois fui lembrar-me de dois personagens que trataram o tema de forma distinta. O Dario tem uma teoria polêmica." Time que quer ganhar título tem que ter uma bicha." Isso foi dito para uma 'multidão' de testemunhas. E o Beija-flor tratou logo de se explicar. "Eles são gentis, unem e organizam o grupo. Todo time em que joguei e fui campeão tinha um gay." Uma bomba reveladora. Pergunto-lhe, como um alcoviteiro. "Quem era a 'moça' na Seleção de 70?" Rasga uma gargalhada e safa-se: "Isso eu levo pro túmulo". Dadá pode manter seu segredo pela eternidade, mas para mim, todos os 22 jogadores passam a ser suspeitos. Todos estão dentro do armário. Quem seria o homossexual tricampeão do mundo? Na outra ponta desta discussão, o técnico Telê Santana. O Formiga era implacável nesse quesito. À mínima suspeita ele cortava o jogador de sua lista. E, ao contrário do parrudo do botequim, nem Pelé entraria no time se fosse boiola. E ele nem queria saber se Ganimedes, o belo rapaz da mitologia grega, tinha despertado paixão no poderoso Júpiter.
Em 1981, quando treinava aquele timaço da Copa de 82, Telê abriu o verbo: "Homossexual não joga no meu time de jeito nenhum. Pode ser muito bom para outras áreas, mas num clube de futebol não tem lugar para gente assim. Não fica bem um homem com um homossexual numa concentração". Sua declaração deixou em polvorosa a comunidade gay e ele passou para a lista dos amaldiçoados. Neste conflito de opiniões, acho que o Dario está certo. Embora o Brasil tivesse um dos melhores times de toda sua história, não havia um rapaz alegre para consolidar a conquista. Com uma equipe só de machões, conforme o figurino de Telê, o Paolo Rossi chutou o sonho do título. Quem seria o gay italiano? O Rossi, com certeza. Língua ferina para vingar a tragédia do Sarriá. Passados 20 anos, acho que Telê não pensaria mais desta forma. Convocaria um e lhe daria a faixa de capitão. Até porque, Belo Horizonte ganhou uma lei de proteção aos homossexuais e é uma das raras cidades do País a possuir uma legislação específica. Com a lei pode-se tudo, menos beijar na boca. Quanta hipocrisia.
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"Minha iniciação foi com uma bicha que nosso time inteiro comeu, lá em Bauru." Frase atribuída a Pelé.
"Ele não tem peito para vir a público justificar a escalação deste árbitro porque não é homem. É um veado." Carlos Alberto Torres, quando era técnico do Botafogo, sobre o presidente da comissão de arbitragem CBF, Armando Marques.**
Wednesday, January 21, 2004
As Horas
Trata-se dum filme denso... o livro ainda não tive oportunidade de ler!
O filme AS HORAS é um filme considerado pelos mais desatentos como um filme sobre a homossexualidade feminina. Eu não acho isso. O filme AS HORAS é também um filme homossexualidade feminina. O que o filme trata é um tema muito comum a todos os seres humanos, muito familiar a todos nós, almas errantes deste cenário tão belo, mas tão controverso que é a vida... Peço desculpa por estar a exagerar nas minhas emoções mas é que estou ao som da banda sonora do filme O PIANO, outro grande filme (não é por acaso). O filme que estou a tentar comentar é um filme que trata sobre o Vazio, o Silêncio que todos nós já sentimos pelo menos uma vez na vida... esse Vazio esse Silêncio, que nos assombra e nos faz sentir vontade de fugir não sabendo para onde... esse Silêncio que nos faz ligar o som e colocar uma ópera (como Clarissa)... ou aquele silêncio que se sente quando o marido se despede e sai (como Laura), ou aquele silêncio que nos consome e nos faz entrar numa completa espiral de delírio (como Richard ou Virginia)... o Vazio duma vida levada a dois, mas que pouco ou nenhum significado tem, apesar de aquela pessoa nos amar (como Clarissa ou Virginia)...
Depois, podemos observar as estratégias feitas duma forma quase ou totalmente inconscientes que os personagens tem para fugirem desse vazio, estratégias que se reflectem na sua personalidade e relação com os outros:
Clarissa, a mulher urbana e actual, tenta preencher a sua vida o mais possível, ocupando-se com festas, e uma dedicação quase maternal para com seu amigo Richard, no entanto o tal Vazio apodera-se dela cada vez mais, à medida que As Horas passam... esse silêncio é demasiado evidente desde que ela se levanta, no entanto ela só desiste quando chega a primeira visita.
Richard, completamente possuído, vive demasiado (in)consciente desse Silêncio e vê-O perfeitamente em Clarissa alertando-a para tal.
Laura, sente que não tem qualquer escape a não ser o livro que obsessivamente lê. A sua vida é vazia demais, de tal forma que vê no suicídio a forma de Lhe escapar porque o livro é efémero e apenas anestesiante... nada a preenche, e talvez Laura seja a pior vítima da sua homossexualidade e seja realmente evidente a tal questão. Até porque dos três beijos do filme o único beijo lésbico é o de Laura e de sua amiga, mulher forte e decidida mas também ela assombrada pelo Vazio provocado pela incapacidade de engravidar.
E agora Virginia Woolf...
A mulher que melhor e pior lida com Ele... O Terrível Vazio que uma vida aparentemente serena nos subúrbios também Nos oferece. Uma casa grande, confortável, mas vazia, onde não há vida ou onde a vida que há é insuficiente ou mesmo desconfortável, como a convivência com “a criadagem”, onde o quarto parece ser o Nosso único refúgio... e... a escrita... a escrita que nos absorve de tal forma que ficamos desatentos, que nos faz esquecer tudo o que nos rodeia até mesmo numa conversa... e embrenhar-nos no enredo dos Nossos personagens e suas histórias... onde o Silêncio está presente a todas As Horas mas que Nós nem sabemos se ele Nos prejudica ou beneficia... a falta que sentimos de gente à nossa volta... a falta que sentimos de vida... de acção... de movimento... a necessidade que temos de viver, e a sensação de que o mundo Nos escapa... os sons... por mais pequenos que sejam interrompem esse silêncio mas apenas tornando-Nos ainda mais conscientes Dele...
Como vêem, este filme, podendo ser um filme sobre Homossexualidade feminina, do meu ponto de vista é muito mais que isso e as histórias daquelas três personagens são histórias de qualquer homem ou qualquer mulher dos dias de hoje, seja ele homossexual ou não.
O filme AS HORAS é um filme considerado pelos mais desatentos como um filme sobre a homossexualidade feminina. Eu não acho isso. O filme AS HORAS é também um filme homossexualidade feminina. O que o filme trata é um tema muito comum a todos os seres humanos, muito familiar a todos nós, almas errantes deste cenário tão belo, mas tão controverso que é a vida... Peço desculpa por estar a exagerar nas minhas emoções mas é que estou ao som da banda sonora do filme O PIANO, outro grande filme (não é por acaso). O filme que estou a tentar comentar é um filme que trata sobre o Vazio, o Silêncio que todos nós já sentimos pelo menos uma vez na vida... esse Vazio esse Silêncio, que nos assombra e nos faz sentir vontade de fugir não sabendo para onde... esse Silêncio que nos faz ligar o som e colocar uma ópera (como Clarissa)... ou aquele silêncio que se sente quando o marido se despede e sai (como Laura), ou aquele silêncio que nos consome e nos faz entrar numa completa espiral de delírio (como Richard ou Virginia)... o Vazio duma vida levada a dois, mas que pouco ou nenhum significado tem, apesar de aquela pessoa nos amar (como Clarissa ou Virginia)...
Depois, podemos observar as estratégias feitas duma forma quase ou totalmente inconscientes que os personagens tem para fugirem desse vazio, estratégias que se reflectem na sua personalidade e relação com os outros:
Clarissa, a mulher urbana e actual, tenta preencher a sua vida o mais possível, ocupando-se com festas, e uma dedicação quase maternal para com seu amigo Richard, no entanto o tal Vazio apodera-se dela cada vez mais, à medida que As Horas passam... esse silêncio é demasiado evidente desde que ela se levanta, no entanto ela só desiste quando chega a primeira visita.
Richard, completamente possuído, vive demasiado (in)consciente desse Silêncio e vê-O perfeitamente em Clarissa alertando-a para tal.
Laura, sente que não tem qualquer escape a não ser o livro que obsessivamente lê. A sua vida é vazia demais, de tal forma que vê no suicídio a forma de Lhe escapar porque o livro é efémero e apenas anestesiante... nada a preenche, e talvez Laura seja a pior vítima da sua homossexualidade e seja realmente evidente a tal questão. Até porque dos três beijos do filme o único beijo lésbico é o de Laura e de sua amiga, mulher forte e decidida mas também ela assombrada pelo Vazio provocado pela incapacidade de engravidar.
E agora Virginia Woolf...
A mulher que melhor e pior lida com Ele... O Terrível Vazio que uma vida aparentemente serena nos subúrbios também Nos oferece. Uma casa grande, confortável, mas vazia, onde não há vida ou onde a vida que há é insuficiente ou mesmo desconfortável, como a convivência com “a criadagem”, onde o quarto parece ser o Nosso único refúgio... e... a escrita... a escrita que nos absorve de tal forma que ficamos desatentos, que nos faz esquecer tudo o que nos rodeia até mesmo numa conversa... e embrenhar-nos no enredo dos Nossos personagens e suas histórias... onde o Silêncio está presente a todas As Horas mas que Nós nem sabemos se ele Nos prejudica ou beneficia... a falta que sentimos de gente à nossa volta... a falta que sentimos de vida... de acção... de movimento... a necessidade que temos de viver, e a sensação de que o mundo Nos escapa... os sons... por mais pequenos que sejam interrompem esse silêncio mas apenas tornando-Nos ainda mais conscientes Dele...
Como vêem, este filme, podendo ser um filme sobre Homossexualidade feminina, do meu ponto de vista é muito mais que isso e as histórias daquelas três personagens são histórias de qualquer homem ou qualquer mulher dos dias de hoje, seja ele homossexual ou não.
Friday, January 16, 2004
Um Outro Mundo é Possível
Um dos nossos amigos escreveu um texto para o boletim do Núcleo de Estudantes de Sociologia da Associação Académica de Coimbra.
Resolvemos partilhá-lo convosco!
Hoje começa a quarta edição do Fórum Social Mundial (www.wsfindia.org) e este é afinal um modo de dizer que…
Um Outro Mundo é Possível
“O mundo só vai prestar
para nele se viver
No dia em que a gente ver
Um Gato maltês casar
Com uma alegre andorinha
Saindo os dois a voar
O noivo e sua noivinha
Dom Gato e Dona Andorinha”
Jorge Amado
“ A Andorinha Sinhá e o Gato Malhado...”
Vivemos actualmente uma crise na democracia e no exercício dos direitos do cidadão. Cada vez mais aparecem por todo o mundo vozes clamando contra a discriminação, á alta de igualdade, liberdade e o centralismo do poder. Vozes, unidas por um só tema: “Um outro mundo é possível”. È por princípio fundamental, numa democracia que os chefes de governo, no âmbito da acção governativa que as suas acções sejam tomadas, o mais próximo possível das necessidades do cidadão.
Serão elas tomadas?
Uma vez que, sabemos que aqueles que mais salientam e afirmam este principio, muitas vezes acabam por tomar decisões drásticas. È devido a este facto, que hoje se (pres) sente as brechas entre governantes e governados, uma vez que a maior parte dos países europeus estão a ser governados por sistemas cada vez mais centralizados e burocratizados, que implementam medidas sem terem em atenção as incidências e consequências que dos mesmos podem resultar para os cidadãos.
Mas nenhuma democracia pode ser efectiva se o povo não for autorizado a saber como, onde e porquê as ditas decisões foram tomadas, dando-lhe algum, sentido de participação.
A realização de fóruns sociais em todas as amplitudes, tem como objectivo, expressar uma clara denúncia na questão dos direitos do homem, da igualdade e da liberdade.
Estes espaços não pretendem representar o conjunto da sociedade portuguesa, mas sim dar voz a muitos daqueles que condenam as políticas económico-sociais, ambientais e culturais do neoliberalismo, a guerra, o sexismo, A HOMOFOBIA, o racismo, a exclusão social, a injustiça, assim como outros problemas sociais. São espaços que organizam oficinas, mesas de controvérsia e seminários sobre os mais derivados temas, trocam-se experiências, criam-se alternativas e discute-se, a partir de ideias de todos.
Em suma, nestes espaços criam-se ideias, preparam-se acções e abrem-se caminhos, no sentido de contribuírem para um mundo melhor, conquistando e defendendo princípios essenciais e direitos cruciais, como os direitos humanos, que infelizmente muitas vezes caem no esquecimento, no quotidiano dos cidadãos.
Daí que seja importante que aqueles cidadãos que se preocupam com as questões sociais, questões da liberdade, de acção e pensamento, se envolvam e façam surgir novas ideias nas sociedades democráticas, obrigando os governantes e os partidos repensar o seu papel perante os cidadãos.
E sobretudo repensar, conceitos como liberdade e igualdade, uma vez que estes embora princípios constitucionais, não passam de expressões decorativas do quotidiano.
È preciso defender a democracia, como sistema político fundando nos direitos humanos, como sistema social que se baseia na iniciativa das pessoas e valoriza a diversidade e a diferença, o encontro e o respeito mútuo entre sociedades e culturas.
Por isso, Jorge Amado, num poema seu refere, “O mundo só vai prestar para nele se viver (...) No dia em que a gente ver um Gato maltês casar, com uma alegre andorinha”.
Num mundo, onde os valores de liberdade, igualdade, assim como de solidariedade e da participação dos cidadãos na sociedade sejam efectivos e envolventes.
Edmundo Santos
Resolvemos partilhá-lo convosco!
Hoje começa a quarta edição do Fórum Social Mundial (www.wsfindia.org) e este é afinal um modo de dizer que…
Um Outro Mundo é Possível
“O mundo só vai prestar
para nele se viver
No dia em que a gente ver
Um Gato maltês casar
Com uma alegre andorinha
Saindo os dois a voar
O noivo e sua noivinha
Dom Gato e Dona Andorinha”
Jorge Amado
“ A Andorinha Sinhá e o Gato Malhado...”
Vivemos actualmente uma crise na democracia e no exercício dos direitos do cidadão. Cada vez mais aparecem por todo o mundo vozes clamando contra a discriminação, á alta de igualdade, liberdade e o centralismo do poder. Vozes, unidas por um só tema: “Um outro mundo é possível”. È por princípio fundamental, numa democracia que os chefes de governo, no âmbito da acção governativa que as suas acções sejam tomadas, o mais próximo possível das necessidades do cidadão.
Serão elas tomadas?
Uma vez que, sabemos que aqueles que mais salientam e afirmam este principio, muitas vezes acabam por tomar decisões drásticas. È devido a este facto, que hoje se (pres) sente as brechas entre governantes e governados, uma vez que a maior parte dos países europeus estão a ser governados por sistemas cada vez mais centralizados e burocratizados, que implementam medidas sem terem em atenção as incidências e consequências que dos mesmos podem resultar para os cidadãos.
Mas nenhuma democracia pode ser efectiva se o povo não for autorizado a saber como, onde e porquê as ditas decisões foram tomadas, dando-lhe algum, sentido de participação.
A realização de fóruns sociais em todas as amplitudes, tem como objectivo, expressar uma clara denúncia na questão dos direitos do homem, da igualdade e da liberdade.
Estes espaços não pretendem representar o conjunto da sociedade portuguesa, mas sim dar voz a muitos daqueles que condenam as políticas económico-sociais, ambientais e culturais do neoliberalismo, a guerra, o sexismo, A HOMOFOBIA, o racismo, a exclusão social, a injustiça, assim como outros problemas sociais. São espaços que organizam oficinas, mesas de controvérsia e seminários sobre os mais derivados temas, trocam-se experiências, criam-se alternativas e discute-se, a partir de ideias de todos.
Em suma, nestes espaços criam-se ideias, preparam-se acções e abrem-se caminhos, no sentido de contribuírem para um mundo melhor, conquistando e defendendo princípios essenciais e direitos cruciais, como os direitos humanos, que infelizmente muitas vezes caem no esquecimento, no quotidiano dos cidadãos.
Daí que seja importante que aqueles cidadãos que se preocupam com as questões sociais, questões da liberdade, de acção e pensamento, se envolvam e façam surgir novas ideias nas sociedades democráticas, obrigando os governantes e os partidos repensar o seu papel perante os cidadãos.
E sobretudo repensar, conceitos como liberdade e igualdade, uma vez que estes embora princípios constitucionais, não passam de expressões decorativas do quotidiano.
È preciso defender a democracia, como sistema político fundando nos direitos humanos, como sistema social que se baseia na iniciativa das pessoas e valoriza a diversidade e a diferença, o encontro e o respeito mútuo entre sociedades e culturas.
Por isso, Jorge Amado, num poema seu refere, “O mundo só vai prestar para nele se viver (...) No dia em que a gente ver um Gato maltês casar, com uma alegre andorinha”.
Num mundo, onde os valores de liberdade, igualdade, assim como de solidariedade e da participação dos cidadãos na sociedade sejam efectivos e envolventes.
Edmundo Santos
Thursday, January 15, 2004
THE LORD OF THE RINGS E HOMOSSEXUALIDADE
Bom, é refeito da grande injecção de adrenalina (dose de cavalo, diga-se) que foi assistir ao épico O Senhor dos Anéis. Este filme não me surpreendeu porque não estava à espera de menos... andei o ano inteiro à espera deste momento, e de facto comprovei com o ultimo episódio desta trilogia, que se trata dum trabalho muito bem conseguido e muito rico! Digo rico, porque transpondo para o reino da fantasia e da imaginação são abordados temas que penso estarem um pouco esquecidos... são eles a fé, a honra, o valor da Palavra e até mesmo as questões mais existenciais. No entanto o que pretendo comentar é sem dúvida a relação muito homossexual dos pequenos hobitts, nomeadamente a de Frodo e Sam!
Entre alguns filmes que vi, abordando a homossexualidade, nenhum retrata este tema com uma sensibilidade tão grande para aquilo que considero ser o âmago, a raiz de todos os homossexuais. Quero dizer com isto que Frodo é muito Gay e quero também dizer que a história e a natureza daquele personagem é o princípio de tudo, é onde tudo começa... Acho que todos os Gays se deviam rever naquele pequeno hobbitt pois numa autêntica construção de estereótipos e teorias muito bem fundamentadas é esquecido aquilo que caracteriza realmente um homossexual numa fase inicial que depois tendo de sofrer o stress de uma “transformação” como a do “coming out” acaba por se perder nos labirintos de uma profunda necessidade de identificação.
Mas o que quero eu dizer com isto, afinal? Quero dizer, que a homossexualidade, em particular a masculina está geralmente associada a um cenário decadente, onde o sexo, a libertinagem, a dúvida, o “doentio” e a marginalização imperam, como se os Gays estivessem eternamente condenados a uma autêntica calamidade. No entanto, com este filme, constatamos que a homossexualidade é algo mais bonito... algo mais íntimo, algo menos obscuro... Com Frodo percebemos que homossexualidade é amizade, é inocência é pureza de sentimentos... com Frodo percebemos que um homossexual na sua aparente fragilidade encerra em si uma força interior e uma ânsia de viver que o distingue de qualquer outro. Essa ânsia de viver reflecte-se no gosto pela aventura, no desejo de conhecer e acima de tudo numa luta constante contra aquilo a que chamo de marasmo emocional...
Guilherme de Melo disse-o no final do seu livro GAYVOTA, como uma clareza que me trespassou o espírito: “Dê-lhe, sobretudo, a força e a coragem necessárias para ele partir, na altura exacta, ao encontro de si mesmo. Do Mundo. Dos Homens. Da Vida. Porque todas as gaivotas precisam de ser livres. E voar. As gayvotas também.”
Resumindo, acho que com o personagem de Frodo do Senhor dos Anéis, cai completamente por terra a imagem de que o Gay tem que ser rico, tem que ser bonito, tem que ser letrado, tem que ser um devorador de homens (passe a expressão)... é por estas e muitas outras exigências que os gays fazem a si próprios que caiem no grande fosso existencial em que se encontram.
É esta a minha modesta opinião baseada no saber empírico adquirido na minha ainda curta viagem, pelo mundo da homossexualidade, note-se, pelo mundo, não pela homossexualidade... por ela é já uma viagem longa e que me dá suficiente legitimidade para opinar desta forma.
O Elfo
Entre alguns filmes que vi, abordando a homossexualidade, nenhum retrata este tema com uma sensibilidade tão grande para aquilo que considero ser o âmago, a raiz de todos os homossexuais. Quero dizer com isto que Frodo é muito Gay e quero também dizer que a história e a natureza daquele personagem é o princípio de tudo, é onde tudo começa... Acho que todos os Gays se deviam rever naquele pequeno hobbitt pois numa autêntica construção de estereótipos e teorias muito bem fundamentadas é esquecido aquilo que caracteriza realmente um homossexual numa fase inicial que depois tendo de sofrer o stress de uma “transformação” como a do “coming out” acaba por se perder nos labirintos de uma profunda necessidade de identificação.
Mas o que quero eu dizer com isto, afinal? Quero dizer, que a homossexualidade, em particular a masculina está geralmente associada a um cenário decadente, onde o sexo, a libertinagem, a dúvida, o “doentio” e a marginalização imperam, como se os Gays estivessem eternamente condenados a uma autêntica calamidade. No entanto, com este filme, constatamos que a homossexualidade é algo mais bonito... algo mais íntimo, algo menos obscuro... Com Frodo percebemos que homossexualidade é amizade, é inocência é pureza de sentimentos... com Frodo percebemos que um homossexual na sua aparente fragilidade encerra em si uma força interior e uma ânsia de viver que o distingue de qualquer outro. Essa ânsia de viver reflecte-se no gosto pela aventura, no desejo de conhecer e acima de tudo numa luta constante contra aquilo a que chamo de marasmo emocional...
Guilherme de Melo disse-o no final do seu livro GAYVOTA, como uma clareza que me trespassou o espírito: “Dê-lhe, sobretudo, a força e a coragem necessárias para ele partir, na altura exacta, ao encontro de si mesmo. Do Mundo. Dos Homens. Da Vida. Porque todas as gaivotas precisam de ser livres. E voar. As gayvotas também.”
Resumindo, acho que com o personagem de Frodo do Senhor dos Anéis, cai completamente por terra a imagem de que o Gay tem que ser rico, tem que ser bonito, tem que ser letrado, tem que ser um devorador de homens (passe a expressão)... é por estas e muitas outras exigências que os gays fazem a si próprios que caiem no grande fosso existencial em que se encontram.
É esta a minha modesta opinião baseada no saber empírico adquirido na minha ainda curta viagem, pelo mundo da homossexualidade, note-se, pelo mundo, não pela homossexualidade... por ela é já uma viagem longa e que me dá suficiente legitimidade para opinar desta forma.
O Elfo
Wednesday, January 14, 2004
Colchão de Noiv@s
Comer bem é um daqueles prazeres…hum!
E que tal uma receita de um doce para aquecer o ambiente?!
Ingredientes:
1 Lata de leite condensado
1 Lata de natas
Opcional:
1 Pacote de bolacha Maria
100 gr de amêndoas (ambas picadas em conjunto na 1,2,3)
Nozes partidas aos bocadinhos, pinhões e passas, q.b.
Confecção:
Bate-se o leite condensado, depois de ter estado um bom bocado no frigorífico, até ficar bem espesso.
Depois batem-se as natas até ficarem bem firmes e junta-se ao leite condensado, com cuidado.
Vai ao frigorífico e serve-se bem gelado.
Para variar pode-se fazer alternando uma camada de creme, uma camada de bolacha e amêndoas picadas em conjunto e frutos secos (ex. pinhões, passas, nozes).
A primeira camada deve ser de bolacha e amêndoas com os frutos secos por cima e a última de creme.
Divirtam-se na confecção e a comer…
E que tal uma receita de um doce para aquecer o ambiente?!
Ingredientes:
1 Lata de leite condensado
1 Lata de natas
Opcional:
1 Pacote de bolacha Maria
100 gr de amêndoas (ambas picadas em conjunto na 1,2,3)
Nozes partidas aos bocadinhos, pinhões e passas, q.b.
Confecção:
Bate-se o leite condensado, depois de ter estado um bom bocado no frigorífico, até ficar bem espesso.
Depois batem-se as natas até ficarem bem firmes e junta-se ao leite condensado, com cuidado.
Vai ao frigorífico e serve-se bem gelado.
Para variar pode-se fazer alternando uma camada de creme, uma camada de bolacha e amêndoas picadas em conjunto e frutos secos (ex. pinhões, passas, nozes).
A primeira camada deve ser de bolacha e amêndoas com os frutos secos por cima e a última de creme.
Divirtam-se na confecção e a comer…
QueerCapelos!
As universidades mais antigas têm sempre locais cheios de tradição, de bafio e pó, onde se realizam aos “grandes actos”, os momentos altos da vida académica.
Em Coimbra, e na sua “centenária” universidade, essa sala chama-se Sala dos Capelos com as suas cadeiras do século XVIII, incomodativas e duras, os quadros retratando os reis portugueses que lhe dão um ar pesado e monumental, que incomoda…
No passado dia 12 estive por lá duas horas numa sessão de doutoramento de uma pessoa que muito admiro, quer em termos pessoais, quer científicos: Virgínia Ferreira.
Esta conhecida investigadora e professora da Universidade de Coimbra defendeu uma tesa intitulada Relações sociais de sexo e segregação do emprego: uma análise da feminização dos escritórios em Portugal, com um júri constituído por 6 pessoas.
Ao longo da defesa da tese escrevi muitas notas no meu diário, pois algumas frases eram imperdíveis e provocaram elas mesmas reflexões divertidas que partilho:
Uma primeira nota vai para o facto de o júri ser paritário, coisa rara neste tipo de cerimónia, destacando neste a “prestação” de Boaventura Sousa Santos. O orientador da tese soube “quebrar as regras” daquele local, num estilo que muito o caracteriza e em que uma fina ironia é marca, ao afirmar “que a formalidade desta sala pesa muito sobre nós… este senhores que nos observam dos quadros oprimem esta cerimónia… será tempo de lhe darmos alguma informalidade”
Uma segunda nota são as fatiotas… será que não se pode ter outro tipo de fatos nestas cerimónias? Tudo muito negro… não fora presença do traje azulado de Yale que Boaventura Sousa Santos usava, e a fita verde de Maria de Dores Guerreiro a quebrar a monotonia!
Já nas intervenções a “cor”, ou se quisermos, a “diversidades das cores” foi grande… A monumental, vetusta e tradicional “Sala dos Capelos” foi durante algum tempo tomada por um outro discurso por uma outra academia, mais próxima de nós e mais consentânea com as “obrigatoriedades” da academia para com a sociedade.
Aqui ficam algumas frases, ou algumas ideias:
- “Diferenciação entre trabalho, ou actividades, femininas masculinas? Existe? Criámos tipificações que nada tem a ver com as actividades, mas sim com o seu processo social de construção e com os discursos que fazemos em torno delas!” Virgínia Ferreira
- Quanto ao apoio à maternidade as políticas publicas que apoiaram a maternidade promovendo a estadia da mãe em casa forma um falhanço, e em alguns países, como em França, voltou-se à política de construção de creches ou a apoios fiscais a empresas com boas práticas no apoio à maternidade. “Ou seja menos política de apoio individualizado e mais políticas de apoio social” Virgínia Ferreira
- Universalidade da discriminação e diversidade das discriminações? Comos e cruzam perspectivas de análise regional/sectorial com a universalidade? E já agora diversidade e igualdade? Como se cruzaram?
- “Rejeito um feminismo que se baseia na morte do sujeito” Virgínia Ferreira
- “Os movimentos sociais devem se construir a dos processos e das práticas de contestação” Virgínia Ferreira
- “Os homens no mercado de trabalho não tem sexo, só as mulheres tem sexo”, Virgínia Ferreira lembrou mesmo as explicações do humor “daquela colega de trabalho” a partir o ciclo menstrual
“É necessário tornar os homens mais parecidos com as mulheres”. Esta frase de Virgínia Ferreira enquadrou-se no momento em que relativamente à maternidade defendeu que os processos legais e burocráticos que enquadram as licenças de paternidade deveriam ser iguais aos da licença de maternidade. Aqui está algo simples e que poderia promover realmente uma outra política da maternidade/paternidade!!!
Em Coimbra, e na sua “centenária” universidade, essa sala chama-se Sala dos Capelos com as suas cadeiras do século XVIII, incomodativas e duras, os quadros retratando os reis portugueses que lhe dão um ar pesado e monumental, que incomoda…
No passado dia 12 estive por lá duas horas numa sessão de doutoramento de uma pessoa que muito admiro, quer em termos pessoais, quer científicos: Virgínia Ferreira.
Esta conhecida investigadora e professora da Universidade de Coimbra defendeu uma tesa intitulada Relações sociais de sexo e segregação do emprego: uma análise da feminização dos escritórios em Portugal, com um júri constituído por 6 pessoas.
Ao longo da defesa da tese escrevi muitas notas no meu diário, pois algumas frases eram imperdíveis e provocaram elas mesmas reflexões divertidas que partilho:
Uma primeira nota vai para o facto de o júri ser paritário, coisa rara neste tipo de cerimónia, destacando neste a “prestação” de Boaventura Sousa Santos. O orientador da tese soube “quebrar as regras” daquele local, num estilo que muito o caracteriza e em que uma fina ironia é marca, ao afirmar “que a formalidade desta sala pesa muito sobre nós… este senhores que nos observam dos quadros oprimem esta cerimónia… será tempo de lhe darmos alguma informalidade”
Uma segunda nota são as fatiotas… será que não se pode ter outro tipo de fatos nestas cerimónias? Tudo muito negro… não fora presença do traje azulado de Yale que Boaventura Sousa Santos usava, e a fita verde de Maria de Dores Guerreiro a quebrar a monotonia!
Já nas intervenções a “cor”, ou se quisermos, a “diversidades das cores” foi grande… A monumental, vetusta e tradicional “Sala dos Capelos” foi durante algum tempo tomada por um outro discurso por uma outra academia, mais próxima de nós e mais consentânea com as “obrigatoriedades” da academia para com a sociedade.
Aqui ficam algumas frases, ou algumas ideias:
- “Diferenciação entre trabalho, ou actividades, femininas masculinas? Existe? Criámos tipificações que nada tem a ver com as actividades, mas sim com o seu processo social de construção e com os discursos que fazemos em torno delas!” Virgínia Ferreira
- Quanto ao apoio à maternidade as políticas publicas que apoiaram a maternidade promovendo a estadia da mãe em casa forma um falhanço, e em alguns países, como em França, voltou-se à política de construção de creches ou a apoios fiscais a empresas com boas práticas no apoio à maternidade. “Ou seja menos política de apoio individualizado e mais políticas de apoio social” Virgínia Ferreira
- Universalidade da discriminação e diversidade das discriminações? Comos e cruzam perspectivas de análise regional/sectorial com a universalidade? E já agora diversidade e igualdade? Como se cruzaram?
- “Rejeito um feminismo que se baseia na morte do sujeito” Virgínia Ferreira
- “Os movimentos sociais devem se construir a dos processos e das práticas de contestação” Virgínia Ferreira
- “Os homens no mercado de trabalho não tem sexo, só as mulheres tem sexo”, Virgínia Ferreira lembrou mesmo as explicações do humor “daquela colega de trabalho” a partir o ciclo menstrual
“É necessário tornar os homens mais parecidos com as mulheres”. Esta frase de Virgínia Ferreira enquadrou-se no momento em que relativamente à maternidade defendeu que os processos legais e burocráticos que enquadram as licenças de paternidade deveriam ser iguais aos da licença de maternidade. Aqui está algo simples e que poderia promover realmente uma outra política da maternidade/paternidade!!!
Tuesday, January 13, 2004
Aborto em Portugal – é urgente mudar
Em Portugal o aborto continua a ser uma das maiores causas de morte materna, estimando-se que dos cerca de 30 mil abortos clandestinos praticados anualmente, 5 mil resultem em internamento em hospitais públicos por motivos de complicações pós-interrupção voluntária da gravidez. Mas dizem-me que a lei restritiva que temos é «razoável».
Neste país, a principal causa de aborto é a gravidez indesejada por motivos pessoais ou sociais. O aborto por motivos pessoais ou sociais foi descriminalizado em todos os países da União Europeia, à excepção da Irlanda, Polónia, Malta e Portugal. Mas dizem-me que a lei já prevê os casos «justos» em que uma mulher pode decidir não ter uma criança.
E dizem-me que as mulheres são «irresponsáveis», principalmente «as jovens!», como se proibir solucionasse alguma coisa ou como se as tais «irresponsáveis» (que eu francamente continuo sem conhecer) já não praticassem abortos clandestinos.
Dizem-me também que não é justo participar monetariamente desse processo, como se os custos decorrentes de complicações pós-abortivas não fossem já elevados por via das más condições em que são praticados.
Dizem-me ainda que o importante é a educação sexual e o planeamento familiar, como se tudo isso não fosse desde sempre a nossa luta, de quem defende também a descriminalização do aborto.
E dizem-me tantos outros disparates que frequentemente se torna difícil engolir o despeito que sinto.
Em 2002, o julgamento da Maia marcou a diferença entre a negligência e o cumprimento de uma lei desajustada, cujos impactos assumem contornos medievais e caducos e que constitui uma violação dos direitos humanos das mulheres. No Tribunal da Maia, onde um conjunto de pessoas foi julgado por práticas relacionadas com o aborto, assistimos a um momento de particular crueldade para com mulheres e profissionais de saúde envolvidos/as. Nesse julgamento, Maria do Céu, enfermeira, foi condenada a 8 anos de cadeia. Por outras palavras, num país onde morrem mulheres porque uma lei as discrimina duas vezes, há uma outra mulher a cumprir pena pelo «crime» de procurar realizar interrupções voluntárias de gravidez com as condições mínimas de segurança. Será isto o que significa o conceito de «lei criminosa»?
Em Abril deste ano fui com outras 4 amigas ao Estabelecimento Prisional de Felgueiras para conhecer Maria do Céu. Quando lá chegámos, os guardas prisionais pediram-nos identificação, aproveitando para comentar sarcasticamente «Não me digam que vieram aprender alguma coisinha com ela…». Foi com esforço que travei a minha revolta. Pensam então estas pessoas que Maria do Céu nada tem para nos ensinar. Talvez não saibam que a Maria do Céu ensina a cada dia que a actual lei do aborto tem de mudar porque não salva vidas – mata, maltrata, criminaliza. Mas não faz tudo isto a quem dispõe de recursos financeiros suficientes para proceder a um aborto com condições mínimas de segurança em clínicas privadas ou noutros pontos da Europa aonde se vai, alegadamente, para umas férias… Com efeito, a lei que temos é a lei que pune quem já é mais excluído do sistema social, as mulheres pobres. É também a lei que minoriza a capacidade de decisão e o real poder de escolha de todas as mulheres, a quem passa, desta forma, uma certidão de inaptidão ou irresponsabilidade. É ainda a lei que nos afecta a todos, homens e mulheres, enquanto seres humanos que não dispomos dos nossos corpos e afectos.
A Maria do Céu, símbolo da luta contra o estado actual da lei, não buscou para si tamanha responsabilidade. Não procurou ser símbolo fosse do que fosse. Trata-se apenas de uma mulher doce, calma, que disponibilizou as suas aptidões técnicas e profissionais ao serviço das mulheres que a procuravam. Foi, seguramente, paga por esse serviço, como qualquer médico/a é pago de cada vez que vamos a uma consulta, nem que seja para actualizar a graduação das lentes de contacto. Mas a Maria do Céu fez tudo o que podia para que a interrupção voluntária de gravidez das mulheres que a procuraram fosse feita em segurança, com todas as condições de segurança, higiene e conforto. Até porque o direito à saúde sexual e reprodutiva é um direito humano. Assim como o direito ao corpo. Assim como o direito à auto-determinação sexual.
A Maria do Céu crê que o futuro será diferente. Eu também, porque a actual lei que criminaliza a interrupção voluntária da gravidez é injusta, inadequada e hipócrita, contrariando diversos direitos humanos e sexuais consagrados. Mas para que a lei mude, não podemos cruzar os braços com a desculpa de que nada disto nos afectará jamais. Já é tarde e demasiado grave a situação para que nos alheemos. Daí o meu apelo, para que no que estiver ao nosso alcance tenhamos um gesto de solidariedade para com esta causa.
É por este motivo que cidadãs e cidadãos empenhados/as na descriminalização do aborto fizeram uma petição para a realização de um Referendo sobre a lei do aborto em Portugal. Esta petição está neste momento a circular de Norte a Sul do país. Somente a recolha de 75 mil assinaturas promoverá a petição popular, ao abrigo do disposto nos artigos 10 a 19 da Lei nº 15 – A/98, de 3 de Abril, para a convocação de um referendo com a seguinte pergunta: «Concorda que deixe de constituir crime o aborto realizado nas primeiras dez semanas de gravidez, com o consentimento da mulher, em estabelecimento legal de saúde?»
Agora, pergunto: podemos contar com a tua assinatura?
Ana Cristina Santos
Em Portugal o aborto continua a ser uma das maiores causas de morte materna, estimando-se que dos cerca de 30 mil abortos clandestinos praticados anualmente, 5 mil resultem em internamento em hospitais públicos por motivos de complicações pós-interrupção voluntária da gravidez. Mas dizem-me que a lei restritiva que temos é «razoável».
Neste país, a principal causa de aborto é a gravidez indesejada por motivos pessoais ou sociais. O aborto por motivos pessoais ou sociais foi descriminalizado em todos os países da União Europeia, à excepção da Irlanda, Polónia, Malta e Portugal. Mas dizem-me que a lei já prevê os casos «justos» em que uma mulher pode decidir não ter uma criança.
E dizem-me que as mulheres são «irresponsáveis», principalmente «as jovens!», como se proibir solucionasse alguma coisa ou como se as tais «irresponsáveis» (que eu francamente continuo sem conhecer) já não praticassem abortos clandestinos.
Dizem-me também que não é justo participar monetariamente desse processo, como se os custos decorrentes de complicações pós-abortivas não fossem já elevados por via das más condições em que são praticados.
Dizem-me ainda que o importante é a educação sexual e o planeamento familiar, como se tudo isso não fosse desde sempre a nossa luta, de quem defende também a descriminalização do aborto.
E dizem-me tantos outros disparates que frequentemente se torna difícil engolir o despeito que sinto.
Em 2002, o julgamento da Maia marcou a diferença entre a negligência e o cumprimento de uma lei desajustada, cujos impactos assumem contornos medievais e caducos e que constitui uma violação dos direitos humanos das mulheres. No Tribunal da Maia, onde um conjunto de pessoas foi julgado por práticas relacionadas com o aborto, assistimos a um momento de particular crueldade para com mulheres e profissionais de saúde envolvidos/as. Nesse julgamento, Maria do Céu, enfermeira, foi condenada a 8 anos de cadeia. Por outras palavras, num país onde morrem mulheres porque uma lei as discrimina duas vezes, há uma outra mulher a cumprir pena pelo «crime» de procurar realizar interrupções voluntárias de gravidez com as condições mínimas de segurança. Será isto o que significa o conceito de «lei criminosa»?
Em Abril deste ano fui com outras 4 amigas ao Estabelecimento Prisional de Felgueiras para conhecer Maria do Céu. Quando lá chegámos, os guardas prisionais pediram-nos identificação, aproveitando para comentar sarcasticamente «Não me digam que vieram aprender alguma coisinha com ela…». Foi com esforço que travei a minha revolta. Pensam então estas pessoas que Maria do Céu nada tem para nos ensinar. Talvez não saibam que a Maria do Céu ensina a cada dia que a actual lei do aborto tem de mudar porque não salva vidas – mata, maltrata, criminaliza. Mas não faz tudo isto a quem dispõe de recursos financeiros suficientes para proceder a um aborto com condições mínimas de segurança em clínicas privadas ou noutros pontos da Europa aonde se vai, alegadamente, para umas férias… Com efeito, a lei que temos é a lei que pune quem já é mais excluído do sistema social, as mulheres pobres. É também a lei que minoriza a capacidade de decisão e o real poder de escolha de todas as mulheres, a quem passa, desta forma, uma certidão de inaptidão ou irresponsabilidade. É ainda a lei que nos afecta a todos, homens e mulheres, enquanto seres humanos que não dispomos dos nossos corpos e afectos.
A Maria do Céu, símbolo da luta contra o estado actual da lei, não buscou para si tamanha responsabilidade. Não procurou ser símbolo fosse do que fosse. Trata-se apenas de uma mulher doce, calma, que disponibilizou as suas aptidões técnicas e profissionais ao serviço das mulheres que a procuravam. Foi, seguramente, paga por esse serviço, como qualquer médico/a é pago de cada vez que vamos a uma consulta, nem que seja para actualizar a graduação das lentes de contacto. Mas a Maria do Céu fez tudo o que podia para que a interrupção voluntária de gravidez das mulheres que a procuraram fosse feita em segurança, com todas as condições de segurança, higiene e conforto. Até porque o direito à saúde sexual e reprodutiva é um direito humano. Assim como o direito ao corpo. Assim como o direito à auto-determinação sexual.
A Maria do Céu crê que o futuro será diferente. Eu também, porque a actual lei que criminaliza a interrupção voluntária da gravidez é injusta, inadequada e hipócrita, contrariando diversos direitos humanos e sexuais consagrados. Mas para que a lei mude, não podemos cruzar os braços com a desculpa de que nada disto nos afectará jamais. Já é tarde e demasiado grave a situação para que nos alheemos. Daí o meu apelo, para que no que estiver ao nosso alcance tenhamos um gesto de solidariedade para com esta causa.
É por este motivo que cidadãs e cidadãos empenhados/as na descriminalização do aborto fizeram uma petição para a realização de um Referendo sobre a lei do aborto em Portugal. Esta petição está neste momento a circular de Norte a Sul do país. Somente a recolha de 75 mil assinaturas promoverá a petição popular, ao abrigo do disposto nos artigos 10 a 19 da Lei nº 15 – A/98, de 3 de Abril, para a convocação de um referendo com a seguinte pergunta: «Concorda que deixe de constituir crime o aborto realizado nas primeiras dez semanas de gravidez, com o consentimento da mulher, em estabelecimento legal de saúde?»
Agora, pergunto: podemos contar com a tua assinatura?
Ana Cristina Santos
Voar...
Vejo uma aldeia, uma aldeia primitiva. Primitiva no mais puro significado da palavra. Livre do mal e de preconceitos, unida pelo amor e pelo medo de um mundo que é incompreendido, tal como nos primórdios dos tempos. Nessa aldeia, a aldeia perfeita, as pessoas acreditam nas suas possibilidades; acreditam-se que, neste dia em que se sentem bem, ninguém as fará parar. As pessoas sabem o que querem, o que hão-de ou não fazer. Não se acomodam. Sonham e transcrevem os seus sonhos de um papel ou de um vago pensamento para a realidade. Contemplam, à noite, a escuridão que se faz sentir naquele céu manchado de pontos luminosos, dando-lhes uma noção de infinito. Contemplam-no e encantam-se, não se sentindo tristes, pois não se tornam insignificantes no seio de tão vasto Universo. Não! São muito mais que tudo isso. Basta-lhes ser importantes para alguém, tal como para elas mesmas. Acreditam que podem mudar o mundo, apesar de serem poucos. Unem-se e fortalecem-se.
Sabem a verdade. Sabem que um dia a Terra, portadora de uma tão vasta variedade e quantidade de vida, vida que se faz sentir, que se mexe, que voa, mesmo não sendo a dos pássaros, sabem que tudo isto um dia acabará, para se transformar no nada, no vazio, no silêncio, no quieto. Esta ideia assusta-os, é verdade. Mas não choram. Não têm medo do nada pois também não querem tudo. Querem apenas ser felizes. Nada mais importa. Sentem-se importantes, muito mais que milhões de planetas, estrelas e “universos" que estão sobre eles e lhes podem cair em cima. Vêm que, afinal de contas, significam muito. Significam a magia e o sonho tornados realidade.
E é assim que eu me quero sentir, quero voar, não quero ser só mais uma pessoa a passar por aqui sem tentar ser feliz. Quero-me libertar destas correntes que inibem os meus comportamento e pensamento, não os deixando satisfazerem-se na sua total necessidade. Com energia a sair das mãos e a querer alcançar algo na esperança de ter um motivo, uma crença, algo que me faça sentir que vale a pena viver.
Há uma escola, não muito longe de mim nem de TI, aqui bem perto, que nos faz valorizar o pouco que temos. Ou, talvez nos faça aperceber que este pouco é muito, muito, muito. Mil vezes muito, ou muito infinitamente.
Há pessoas, não muito longe de mim nem de TI, que não têm família, que não têm tanta coisa ... Como se costuma dizer: "Chorava porque não tinha sapatos, até encontrar alguém que não tinha pés". Não, minto. Estas pessoas têm pés. No entanto, não têm capacidade racional, não têm ambições, não têm sonhos, não têm felicidade, não têm aquilo que se eu ou TU nos víssemos sem, provavelmente não aguentaríamos.
Tenho sapatos, pés, tudo aquilo que foi referido. Penso que chegou a hora de valorizar o facto de poder sonhar, pondo esses mesmos sonhos em prática.
Gosto de me sentar no jardim da minha casa, a olhar para as mais banais coisas, apreciando-as. Vejo abelhas no telhado, como são tantas. Voam e pousam e tornam a voar. Serão felizes? Não sei. Ouço pássaros a chilrear e a voar. Serão felizes? Talvez. Provavelmente são mais felizes do que aquele lindo passaroco que existe na gaiola da casa da vizinha. Para quê tanta beleza? Para quê tanta formosura? Para a vizinha se esquecer de deitar água ao pássaro e este morrer de sede. Deixem-no viver, deixem-no voar. Deixem-no usufruir das suas asas, tal como muitos outros pássaros, bem menos esbeltos, é verdade, mas muito mais felizes. Claro que correm sempre o risco de serem baleados por caçadores, homens maus e sem coração. Caso isso aconteça, caso o rafeiro passaroco encontre a morte trazida tão fria e brutalmente por uma feia e gorda bala que lhe trespasse o coração, (que eu sei que o tem), este morreria feliz. Agora tu, pássaro da cidade, tu, pássaro da jaula, eu sei que não tens culpa, mas, caso a morte venha ao teu encontro, na tua bela e dourada mansão, esta ser-te-á muito mais penosa. E era uma vez um pássaro. Um senhor pássaro que nasceu um dia para morrer noutro dia. Oh! Pessoas da cidade! Vivam, voem e deixem os outros não terem de viver para morrer ...
Surge sempre uma luz no fim do túnel. Mesmo que, no final de contas, nós próprios nos tenhamos de transformar nessa luz ...
É verdade. Quando tudo parece perdido, algo se encontra. Uma esperança, um motivo, um sonho, uma crença... Algo que nos faz procurar uma chave para a nossa vida. Chego à conclusão de que não posso esperar que a outra margem do rio venha ter comigo, quando o quero atravessar.
Antes ficava triste pois olhava para as estrelas e imaginava que, provavelmente na imensidão do espaço, estaria um herói que me salvaria, e eu, nunca o iria conhecer. Agora, apercebo-me que setenta ou oitenta anos é muito pouco tempo de vida para ser desperdiçado em lamúrias demasiado óbvias. Apercebo-me que tenho de encontrar esse mesmo herói dentro de mim ... Só assim conseguirei usufruir das asas que me farão voar ...
Vejo uma aldeia, uma aldeia primitiva. Primitiva no mais puro significado da palavra. Livre do mal e de preconceitos, unida pelo amor e pelo medo de um mundo que é incompreendido, tal como nos primórdios dos tempos. Nessa aldeia, a aldeia perfeita, as pessoas acreditam nas suas possibilidades; acreditam-se que, neste dia em que se sentem bem, ninguém as fará parar. As pessoas sabem o que querem, o que hão-de ou não fazer. Não se acomodam. Sonham e transcrevem os seus sonhos de um papel ou de um vago pensamento para a realidade. Contemplam, à noite, a escuridão que se faz sentir naquele céu manchado de pontos luminosos, dando-lhes uma noção de infinito. Contemplam-no e encantam-se, não se sentindo tristes, pois não se tornam insignificantes no seio de tão vasto Universo. Não! São muito mais que tudo isso. Basta-lhes ser importantes para alguém, tal como para elas mesmas. Acreditam que podem mudar o mundo, apesar de serem poucos. Unem-se e fortalecem-se.
Sabem a verdade. Sabem que um dia a Terra, portadora de uma tão vasta variedade e quantidade de vida, vida que se faz sentir, que se mexe, que voa, mesmo não sendo a dos pássaros, sabem que tudo isto um dia acabará, para se transformar no nada, no vazio, no silêncio, no quieto. Esta ideia assusta-os, é verdade. Mas não choram. Não têm medo do nada pois também não querem tudo. Querem apenas ser felizes. Nada mais importa. Sentem-se importantes, muito mais que milhões de planetas, estrelas e “universos" que estão sobre eles e lhes podem cair em cima. Vêm que, afinal de contas, significam muito. Significam a magia e o sonho tornados realidade.
E é assim que eu me quero sentir, quero voar, não quero ser só mais uma pessoa a passar por aqui sem tentar ser feliz. Quero-me libertar destas correntes que inibem os meus comportamento e pensamento, não os deixando satisfazerem-se na sua total necessidade. Com energia a sair das mãos e a querer alcançar algo na esperança de ter um motivo, uma crença, algo que me faça sentir que vale a pena viver.
Há uma escola, não muito longe de mim nem de TI, aqui bem perto, que nos faz valorizar o pouco que temos. Ou, talvez nos faça aperceber que este pouco é muito, muito, muito. Mil vezes muito, ou muito infinitamente.
Há pessoas, não muito longe de mim nem de TI, que não têm família, que não têm tanta coisa ... Como se costuma dizer: "Chorava porque não tinha sapatos, até encontrar alguém que não tinha pés". Não, minto. Estas pessoas têm pés. No entanto, não têm capacidade racional, não têm ambições, não têm sonhos, não têm felicidade, não têm aquilo que se eu ou TU nos víssemos sem, provavelmente não aguentaríamos.
Tenho sapatos, pés, tudo aquilo que foi referido. Penso que chegou a hora de valorizar o facto de poder sonhar, pondo esses mesmos sonhos em prática.
Gosto de me sentar no jardim da minha casa, a olhar para as mais banais coisas, apreciando-as. Vejo abelhas no telhado, como são tantas. Voam e pousam e tornam a voar. Serão felizes? Não sei. Ouço pássaros a chilrear e a voar. Serão felizes? Talvez. Provavelmente são mais felizes do que aquele lindo passaroco que existe na gaiola da casa da vizinha. Para quê tanta beleza? Para quê tanta formosura? Para a vizinha se esquecer de deitar água ao pássaro e este morrer de sede. Deixem-no viver, deixem-no voar. Deixem-no usufruir das suas asas, tal como muitos outros pássaros, bem menos esbeltos, é verdade, mas muito mais felizes. Claro que correm sempre o risco de serem baleados por caçadores, homens maus e sem coração. Caso isso aconteça, caso o rafeiro passaroco encontre a morte trazida tão fria e brutalmente por uma feia e gorda bala que lhe trespasse o coração, (que eu sei que o tem), este morreria feliz. Agora tu, pássaro da cidade, tu, pássaro da jaula, eu sei que não tens culpa, mas, caso a morte venha ao teu encontro, na tua bela e dourada mansão, esta ser-te-á muito mais penosa. E era uma vez um pássaro. Um senhor pássaro que nasceu um dia para morrer noutro dia. Oh! Pessoas da cidade! Vivam, voem e deixem os outros não terem de viver para morrer ...
Surge sempre uma luz no fim do túnel. Mesmo que, no final de contas, nós próprios nos tenhamos de transformar nessa luz ...
É verdade. Quando tudo parece perdido, algo se encontra. Uma esperança, um motivo, um sonho, uma crença... Algo que nos faz procurar uma chave para a nossa vida. Chego à conclusão de que não posso esperar que a outra margem do rio venha ter comigo, quando o quero atravessar.
Antes ficava triste pois olhava para as estrelas e imaginava que, provavelmente na imensidão do espaço, estaria um herói que me salvaria, e eu, nunca o iria conhecer. Agora, apercebo-me que setenta ou oitenta anos é muito pouco tempo de vida para ser desperdiçado em lamúrias demasiado óbvias. Apercebo-me que tenho de encontrar esse mesmo herói dentro de mim ... Só assim conseguirei usufruir das asas que me farão voar ...
Eu conheço “o do telhado”...
Eu conheço “o do telhado”, mora aqui na minha aldeia... chamam-lhe Manel da Júlia...
Tem trinta e poucos anos e anda sempre com umas galochas pesadíssimas... sempre sujo, há mesmo dias em que tem um cheiro repulsivo... trabalha quando lhe apetece para os lavradores da zona, que num misto de caridade e oportunismo solicitam os seus serviços... as mulheres riem-se dele e chamam-lhe desgraçado, não o deixam aproximar-se pois no fundo têm medo dele... passa os dias a caminhar pelos campos do vale, pois diz serem sua propriedade, anda a ver como lhe correm as colheitas. A meio da tarde espera pelas crianças que saem da escola, que fazem uma algazarra quando o vêem e a festa mantém-se até que alguém o expulse para longe delas... Aqui na aldeia o Manel da Júlia é o bombo da festa, pois sempre que algo de mau acontece é ele o culpado, apesar disso dizem gostar do “nosso” Manel!
Há uns dias durante a noite passei pela sua casa, em ruínas... lá estava ele, deitado no telhado a ver as estrelas. Abordei-o e conversei com ele. Disse-me que estava a matar saudades da família, pois crê ser filho da lua e irmão das estrelas... enquanto falava largava um sorriso brilhante e puro e o seu olhar era tão penetrante que me assustou, pois pareceu-me nunca ter visto ninguém tão lúcido.
O Manel da Júlia é alguém que me impressiona, pois no meio de tanta ruína, senti naquela pequena conversa, uma subtil forma de felicidade, uma felicidade estranha, genuína mas secreta que ele quer guardar apenas para si.
O Manel da Júlia é sem dúvida diferente mas só os outros acham que ele precisa de ajuda, pois na minha opinião o Manel é único, verdadeiro e livre, quem não gostaria de sê-lo?...
Eu conheço “o do telhado”, mora aqui na minha aldeia... chamam-lhe Manel da Júlia...
Tem trinta e poucos anos e anda sempre com umas galochas pesadíssimas... sempre sujo, há mesmo dias em que tem um cheiro repulsivo... trabalha quando lhe apetece para os lavradores da zona, que num misto de caridade e oportunismo solicitam os seus serviços... as mulheres riem-se dele e chamam-lhe desgraçado, não o deixam aproximar-se pois no fundo têm medo dele... passa os dias a caminhar pelos campos do vale, pois diz serem sua propriedade, anda a ver como lhe correm as colheitas. A meio da tarde espera pelas crianças que saem da escola, que fazem uma algazarra quando o vêem e a festa mantém-se até que alguém o expulse para longe delas... Aqui na aldeia o Manel da Júlia é o bombo da festa, pois sempre que algo de mau acontece é ele o culpado, apesar disso dizem gostar do “nosso” Manel!
Há uns dias durante a noite passei pela sua casa, em ruínas... lá estava ele, deitado no telhado a ver as estrelas. Abordei-o e conversei com ele. Disse-me que estava a matar saudades da família, pois crê ser filho da lua e irmão das estrelas... enquanto falava largava um sorriso brilhante e puro e o seu olhar era tão penetrante que me assustou, pois pareceu-me nunca ter visto ninguém tão lúcido.
O Manel da Júlia é alguém que me impressiona, pois no meio de tanta ruína, senti naquela pequena conversa, uma subtil forma de felicidade, uma felicidade estranha, genuína mas secreta que ele quer guardar apenas para si.
O Manel da Júlia é sem dúvida diferente mas só os outros acham que ele precisa de ajuda, pois na minha opinião o Manel é único, verdadeiro e livre, quem não gostaria de sê-lo?...
Monday, January 12, 2004
No Telhado a ver as Estrelas
O facto de, na maior parte das vezes, não sermos mais do que aquilo que os outros vêem em nós é um realidade evidente. Porquê? Podia alguém estar uma noite inteira deitado no telhado a olhar as estrelas sem que, no dia seguinte, ouvisse comentários sobre a sua sanidade mental?Não... Porquê?
Talvez por ser diferente...
Porque serão as pessoas, de uma maneira geral, tão contrárias ao que é diferente? Quererão elas se-lo também e não poderão? Na maior parte das vezes as pessoas atravessam a breve viagem da sua existência sem nunca reflectirem sobre a vida que escolheram ou não para si; sem nunca se perguntarem porque choram quando morre um amigo, porque censuram o político sem que conheçam ou percebam o seu discurso, porque vêem a homossexualidade como um insulto, ou mesmo porque chamam “aquele do telhado” de tolinho...
Uma coisa é verdade, daqui a uns cem anos todos estaremos mortos. Mas agora não quero referir-me à morte biológica certeza fatal, mas a outra morte... a morte do esquecimento... Aquela que se abate sobre nós, nao nos impedindo os movimentos, mas tornando-os mais lentos...aquela que aparece quando desistimos de lutar, secando o sangue nas veias. Aquela que nasce quando o coração murcha e não nos conseguimos indignar ou comover...morrendo precocemente.
Caso a morte nos ataque assim, de uma forma prematura, de que nos servirá tentar fazer com que os outros pensem que afinal “o do telhado” não era tolinho?!!!
O facto de, na maior parte das vezes, não sermos mais do que aquilo que os outros vêem em nós é um realidade evidente. Porquê? Podia alguém estar uma noite inteira deitado no telhado a olhar as estrelas sem que, no dia seguinte, ouvisse comentários sobre a sua sanidade mental?Não... Porquê?
Talvez por ser diferente...
Porque serão as pessoas, de uma maneira geral, tão contrárias ao que é diferente? Quererão elas se-lo também e não poderão? Na maior parte das vezes as pessoas atravessam a breve viagem da sua existência sem nunca reflectirem sobre a vida que escolheram ou não para si; sem nunca se perguntarem porque choram quando morre um amigo, porque censuram o político sem que conheçam ou percebam o seu discurso, porque vêem a homossexualidade como um insulto, ou mesmo porque chamam “aquele do telhado” de tolinho...
Uma coisa é verdade, daqui a uns cem anos todos estaremos mortos. Mas agora não quero referir-me à morte biológica certeza fatal, mas a outra morte... a morte do esquecimento... Aquela que se abate sobre nós, nao nos impedindo os movimentos, mas tornando-os mais lentos...aquela que aparece quando desistimos de lutar, secando o sangue nas veias. Aquela que nasce quando o coração murcha e não nos conseguimos indignar ou comover...morrendo precocemente.
Caso a morte nos ataque assim, de uma forma prematura, de que nos servirá tentar fazer com que os outros pensem que afinal “o do telhado” não era tolinho?!!!
Sunday, January 11, 2004
A Liberdade é uma Mulher.
A Liberdade é uma mulher. Uma doméstica. A Oprimida! Está lavando um montão de louça depois do jantar também feito por ela (sabe Deus como)! Levantou-se às 5.30 da madrugada para ir trabalhar para a fábrica de confecções. Sente-se cansada mas ainda tem a roupa para engomar. O Marido, o Capitalismo... está sentado no sofá, a ler o jornal e a ver televisão, a fortalecer-se com as notícias que passam. Os seus filhos não estão em casa pois há muito se tornaram delinquentes, o mais velho morreu há meses com uma overdose.
A Liberdade é uma mulher. Uma cigana. A Marginalizada! Vagueia de rua em rua com o seu bebé ao colo, é uma menina, a Esperança! Pede esmola aos transeuntes e em troca diz ler-lhes a sina, mas as suas profecias são negativas e assustadoras, pois sabe que o destino não é favorável. A sua menina chora constantemente nos seus braços perante a já indiferença duma mãe completamente arruinada.
A liberdade é uma mulher. Uma anciã. A matriarca! Viúva do Altruísmo já foi a referência dos membros do seu clã... no entanto a idade já não lhe permite ser forte e os filhos desejam-lhe a morte pois anseiam pelo poder, são as mulheres que cuidam dela e ainda ouvem os seus sábios conselhos... no entanto ela sente que está próximo do fim e é por isso que se debruça sobre as crianças e lhes conta histórias dos seus feitos e de seu marido. A anciã deposita nelas o seu legado.
A Liberdade é uma lésbica. A Apaixonada! Tem como seu grande amor a Dignidade. As duas vivem a sua intensa paixão por trás dos cenários. Juntas, estão convencidas que o seu amor irá mudar o mundo, contudo sabem que não é o momento pois sentem-se discriminadas. Vivem o seu amor às escondidas dando passeios por sítios prazenteiros e fazendo piqueniques em clareiras de florestas... sítios onde podem beijar-se a abraçar-se sempre confiantes que um dia poderão fazê-lo perante o mundo.
A Liberdade é uma mulher. Uma cortesã. A Utopia. Lá está ela em todo o seu esplendor, com o seu vestido de seda roxo e sapatos de salto alto. Ela desliza altivamente por entre a multidão que a venera e aclama, não só pela sua beleza mas também pelo prestígio dos homens que teve em seus braços. Tem fama de libertina, mas no entanto só ela sabe que foram poucos os que a conquistaram, e com ela se deitaram no seu leito de prazer adormecendo num sono profundo que os imortalizou e tornou Heróis. Muitos pediram-na em casamento, outros tantos amaldiçoaram-na, mas ela manteve-se lá, no alto da sua sumptuosidade, bem erguida e soltando gargalhadas irónicas, plenas de felicidade e realização, pois acredita que um dia será rainha!
Belas são as mulheres! Bela é a Liberdade!
A Liberdade é uma mulher. Uma doméstica. A Oprimida! Está lavando um montão de louça depois do jantar também feito por ela (sabe Deus como)! Levantou-se às 5.30 da madrugada para ir trabalhar para a fábrica de confecções. Sente-se cansada mas ainda tem a roupa para engomar. O Marido, o Capitalismo... está sentado no sofá, a ler o jornal e a ver televisão, a fortalecer-se com as notícias que passam. Os seus filhos não estão em casa pois há muito se tornaram delinquentes, o mais velho morreu há meses com uma overdose.
A Liberdade é uma mulher. Uma cigana. A Marginalizada! Vagueia de rua em rua com o seu bebé ao colo, é uma menina, a Esperança! Pede esmola aos transeuntes e em troca diz ler-lhes a sina, mas as suas profecias são negativas e assustadoras, pois sabe que o destino não é favorável. A sua menina chora constantemente nos seus braços perante a já indiferença duma mãe completamente arruinada.
A liberdade é uma mulher. Uma anciã. A matriarca! Viúva do Altruísmo já foi a referência dos membros do seu clã... no entanto a idade já não lhe permite ser forte e os filhos desejam-lhe a morte pois anseiam pelo poder, são as mulheres que cuidam dela e ainda ouvem os seus sábios conselhos... no entanto ela sente que está próximo do fim e é por isso que se debruça sobre as crianças e lhes conta histórias dos seus feitos e de seu marido. A anciã deposita nelas o seu legado.
A Liberdade é uma lésbica. A Apaixonada! Tem como seu grande amor a Dignidade. As duas vivem a sua intensa paixão por trás dos cenários. Juntas, estão convencidas que o seu amor irá mudar o mundo, contudo sabem que não é o momento pois sentem-se discriminadas. Vivem o seu amor às escondidas dando passeios por sítios prazenteiros e fazendo piqueniques em clareiras de florestas... sítios onde podem beijar-se a abraçar-se sempre confiantes que um dia poderão fazê-lo perante o mundo.
A Liberdade é uma mulher. Uma cortesã. A Utopia. Lá está ela em todo o seu esplendor, com o seu vestido de seda roxo e sapatos de salto alto. Ela desliza altivamente por entre a multidão que a venera e aclama, não só pela sua beleza mas também pelo prestígio dos homens que teve em seus braços. Tem fama de libertina, mas no entanto só ela sabe que foram poucos os que a conquistaram, e com ela se deitaram no seu leito de prazer adormecendo num sono profundo que os imortalizou e tornou Heróis. Muitos pediram-na em casamento, outros tantos amaldiçoaram-na, mas ela manteve-se lá, no alto da sua sumptuosidade, bem erguida e soltando gargalhadas irónicas, plenas de felicidade e realização, pois acredita que um dia será rainha!
Belas são as mulheres! Bela é a Liberdade!
Saturday, January 10, 2004
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